quinta-feira, 30 de abril de 2009

frios íntimos

Fechei os olhos no inverno, quando indignei-me com os prantos do sol e gritos candescentes. Ouvi histórias de que um alguém muito espirituoso voltaria, e não voltou. A espera noturna então fez-se convívio dia a dia, entrando pela porta frontal da minha forma inteiriça, quase me deixando ao chão, quase arrancando minha mão, quase me absorvendo, sugando feito refeição sanguinia, devorando, estuprando, no entanto, acariciando algo dentro, alisando carnes sensíveis e compulsivas do músculo-máquina em seu ritmo vermelho.
Foi profundo sentir cada noite e seus pormenores, uma profundeza possessiva, uma calmaria irritante e adormecente, vertiginosa, prazerosa. Na espera ainda norturna eu desço e prometo dormir, descansar o que há de puro ainda e afugentar a dores do sol que me enlaça nas manhãs atrapalhadas. Mas dormir é a minha espera, quase não posso tocar o sono, calado e friorento, debaixo de um lençol que eu sei que não esquenta, ainda necessito estar prostrado em meio ao meu calado constante.
A escada torna-se um espiral, e no perigo de que posso cair sei que é uma bonita mentira dizer que não consigo dormir, mas sei também que é uma mentira que não mente pra mim, acompanha a minha inocência, inere minhas paixões à uma verdade caprichosa. E nessa mentira toda posso viver por inventar uma mentira mais vibrante e harmoniosa, quase posso tocar você, mas a luz me atrapalha, então foges devagar e todo brilhante de amarelo claro tornando-se branco, e ausente.
Toco uma mão diferente, áspera, fala por si, aperta-me um pouco e sai feito vulto indolente, mas é ainda presente, e potente nas minhas memórias, que trapaceiam, esculpem novas versões do que poderia nunca ser real, fala-me ao ouvido, faz brotar um delírio e vou espantado retirando uma pétala e outra desacreditado e mecanicamente. Caem vazias as pétalas, sem som, sem cor, copiando as outras que já caíram, mostram-se finitas, entregam-se e morrem frias... no meu íntimo.

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